Bolsa Família e Mercado de Trabalho: impacto do benefício
O Bolsa Família é considerado o maior programa de transferência de renda do Brasil.
Criado em 2003, desempenhou papel fundamental na redução da pobreza e na retirada do país do Mapa da Fome da ONU.
No entanto, um estudo recente do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) trouxe novos dados para o debate: uma em cada duas famílias beneficiárias deixa o mercado de trabalho após ingressar no programa.
O impacto atinge principalmente jovens homens entre 14 e 30 anos, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, onde o valor médio do benefício se aproxima dos salários praticados no mercado formal.
A seguir, entenda os principais resultados da pesquisa e como o programa pode ser ajustado para equilibrar proteção social e estímulo ao emprego.
Bolsa Família reduz participação no mercado de trabalho?
Segundo o pesquisador Daniel Duque, a taxa de participação no mercado de trabalho caiu em média 11% entre os beneficiários do Bolsa Família, quando comparada a famílias fora do programa. Além disso:
- A chance de estar ocupado reduziu em 12%.
- A probabilidade de conseguir um emprego formal caiu em 13%.
O principal motivo é o receio de perder o benefício ao aceitar empregos registrados, já que o governo tem acesso às informações do mercado formal, mas não do informal.
Isso faz muitos preferirem ficar fora de empregos com carteira assinada.
Bolsa Família afasta jovens do primeiro emprego?
O efeito mais preocupante ocorre entre jovens de 14 a 30 anos. Para muitos, o Bolsa Família representa uma renda mais estável do que empregos temporários e mal remunerados.
O problema é que o adiamento do primeiro emprego pode trazer prejuízos para toda a vida profissional.
De acordo com Duque, postergar em apenas um ano o primeiro emprego formal pode reduzir a renda futura em até 10%, um impacto comparável à perda de um ano de escolaridade.
Isso ocorre porque os jovens deixam de desenvolver habilidades socioemocionais, disciplina e experiência prática.
Norte e Nordeste: por que o impacto é maior nessas regiões?
Nas regiões Norte e Nordeste, o efeito do Bolsa Família sobre o mercado de trabalho é mais intenso.
O motivo é simples: os salários médios são mais baixos e, muitas vezes, o valor do benefício se aproxima da remuneração de mercado.
Assim, jovens e adultos acabam preferindo a segurança do programa em vez de arriscar em empregos formais de baixa remuneração.
Como ajustar o Bolsa Família para incentivar o emprego?
Especialistas apontam caminhos para reduzir os efeitos negativos do Bolsa Família no mercado de trabalho:
- Redução gradual do benefício para jovens sem vínculo estudantil, incentivando-os a buscar emprego.
- Refinanciamento dos valores para mães com filhos pequenos, priorizando famílias em maior vulnerabilidade.
- Integração com políticas educacionais, assegurando renda para estudantes e ampliando programas como o Pé-de-Meia.
- Uso do programa para garantir renda a jovens que desejam concluir o ensino médio ou ingressar no ensino técnico.
Bolsa Família em números: evolução do programa
O programa passou por grandes transformações desde sua criação:
- Em 2019, pagava em média R$ 190 para 14 milhões de famílias.
- Em 2023, após ampliações, o valor médio chegou a R$ 670, atendendo 21 milhões de famílias.
- O orçamento saltou de R$ 35 bilhões em 2017 para R$ 170 bilhões em 2023.
Hoje, mais de 50 milhões de brasileiros dependem diretamente do benefício.
Taxa de participação no trabalho antes e depois da pandemia
Outro fator importante é a pandemia. Antes da crise sanitária, em 2019, a taxa de participação no mercado de trabalho era de 63,6%.
Esse índice despencou para 57,3% em 2020, com recuperação parcial em 2022 (62,7%).
No entanto, após a ampliação do Bolsa Família, estabilizou-se em 61,6% em 2023 e 62,2% em 2025, ainda abaixo do nível pré-pandemia.
Regras do Bolsa Família em 2025: como funcionam as transições
Para evitar que famílias abandonem o emprego formal por medo de perder o auxílio, o governo criou novas regras em 2025:
- Famílias que ultrapassarem o limite de R$ 218 per capita podem permanecer no programa por até 12 meses, recebendo 50% do valor.
- Se a renda não ultrapassar R$ 706 per capita, a família continua com parte do auxílio.
- Famílias com aposentadoria, pensão ou BPC podem permanecer por até 2 meses.
- Em casos de deficiência com BPC, o tempo de permanência pode chegar a 12 meses.
Essas medidas buscam reduzir a evasão do mercado formal e manter o foco em famílias de maior vulnerabilidade.
Bolsa Família como política de Estado
Apesar das discussões, é inegável que o Bolsa Família foi essencial para o combate à fome e à pobreza.
Para que continue cumprindo esse papel, precisa estar aliado a políticas de educação, capacitação profissional e geração de emprego, evitando que milhões de brasileiros fiquem presos a uma dependência permanente.
Conclusão
O estudo do FGV Ibre reforça que, embora seja vital para milhões de famílias, o Bolsa Família pode gerar efeitos colaterais no mercado de trabalho.
A solução está em equilibrar transferência de renda com incentivo ao emprego e à escolaridade, criando um ciclo de oportunidades para as próximas gerações.
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